segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

1.

a.
não sei o que o filme original era, nem sei qual era; nas imagens que recebemos, há uma mulher, uma casa, assombrada por um espírito. mas retrabalhado por tscherkassky, o que temos é uma mulher assombrada por um filme, ou, quem sabe, um filme assombrado. um filme de texturas. ver outer space
chega a ser incômodo (na parte que lembra um strobo, por exemplo); causa, naquele que é pego de surpresa, estranhamento; em mim, que logo verei pela terceira vez, também; além disso, causa maravilhamento. afinal, é incomum: apropriações já se tornaram corriqueiras, mas o que acontece aqui é num outro nível, externo; apropria-se do filme em si, a película, do físico. não há respeito pelo quadro. uma imagem (in)flui na outra; cria-se uma história diferente, ligada de forma direta ao material em queela está gravada; os movimentos, as relocações, são todos advindos deste processo. é sem igual.


esquisito ver este filme num formato digital.

b.
agora, se outer space é uma mulher assombrada por um filme, ivan's childhood é um filme assombrado por sonhos. e desses há vários, mas aqui eles redimensionam todo o resto. deixa de ser apenas um filme sobre a guerra, e passa a ser sobre a infância perdida, sobre a inocência que persiste, sobre o dever diante de um conflito em que todos ali mostrados têm parte. mais: fotografado como foi, a iluminação fazendo sombras delineadas ou transformando corpos em sombra, me remeteu diretamente a alguns filmes do bergman, que acho ser uma associação justa; aqui, como em persona ou em a hora do lobo, a realidade é, algumas vezes, através da luz e da sombra, feita onírica. mas há certa humanidade aqui, mas sensível que eu consigo perceber num bergman: é uma mãe, vista através de um véu d'água; são três 'soldados' se despedindo no rio; são duas crianças correndo no mar.

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