quarta-feira, 2 de abril de 2014

6.

eu quero falar uma coisa bem específica que eu pensei enquanto via santo forte, do coutinho, outro dia; pela primeira vez, no ims (coutinho justifica uma viagem até a gávea). ele entrava na casa daquelas pessoas, cada uma com sua mitologia pessoal, assim como eu tenho a minha; mas a deles, diferentemente, envolvia acontecimentos mais manifestos.

umbanda, espiritismo, unidos ao catolicismo, reconhecidos pelo protestantismo. como católico, aquela imagem de joão paulo ii no flamengo, rezando uma missa, é-me tão cara quanto, ano passado, o papa francisco junto a 3,5 milhões de pessoas na praia de copacabana. eu estava lá, e aquela união ali, aquela presença humana, aquele silêncio que as vezes vinha... são as manifestações que temos. no filme, no entanto, toda aquela gente, que eu não sei se é boa ou má, mas que é gente, retratada com tanto carinho, conta sobre manifestações de orixás, sobre surra de orixás, etc; coisas que não fazem parte da minha fé, mas que ali é normal. e um procedimento usado pelo coutinho me encantou profundamente, e me lembrou um dos poucos bennings que vi, landscape suicide: logo após a pessoa contar que bem ali naquele terreiro, ou naquele mesmo quarto, ocorreu tal fato, de ordem sobrenatural, temos um plano, curto, daquele espaço vazio; um espaço como qualquer outro; desprovido de corpos, como um quarto vazio de nossas casas. mas, a luz do que acabamos de ouvir, esse simples procedimento, essa imagem do nada, do comum, transfigura-se no incomum. a presença do ausente, digamos.

me lembro o benning porque é mais ou menos isso que ele faz, mas de uma outra forma: ele retoma o caso de dois assassinos famosos e compõe um filme de planos longos, que passeiam pelo mesmo cenário em que aquelas pessoas estiveram, onde crimes ocorreram. como uma memória do espaço - ou, digamos, uma presença do ausente.

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